A poesia é um estado de luto ou o transe de Vera Lúcia de Oliveira

 Por Rudinei Borges

 A poesia é um estado de transe, livro de Vera Lúcia de Oliveira, lançado pela Portal editora, concerne num ritual, quase abrupto, de luto – agonia pela perda. O título despista o leitor, mas já nas primeiras linhas o chamariz da palavra transe, termo tão em voga,  é ofuscado por versos como: “a casa se enche de tudo quanto/Deus carrega consigo no seu útero”. A pretensa espiritualidade é logo banida, porque a questão central da poesia de Vera Lúcia é a morte, o amor, o ódio, o mundo e a vida. Trata-se, sem exageros, de uma bíblia concisa. A bíblia das dores do mundo – para lembrar Schopenhauer. A poeta engana a todos. A leveza e a precisão de suas palavras parecem esconder as mazelas mais cruas de sua denúncia: “(…) uma angústia/dentro rasgava o pulmão”. Aliás, Vera Lúcia é uma poeta cruel e destemida. E seu livro, para início de conversa, é uma lição de maturidade poética capaz de arrebatar até mesmo o leitor mais desatento. Ninguém sai o mesmo depois de deparar-se com confissões como aquela que inicia o poema Surdez: “tive duas mãos e não amei nenhuma”. Erra quem entender a palavra confissão como um aglomerado de desafetos apresentado em versos. O caráter confessional da poesia de Lúcia de Oliveira está pautado num alcance existencial-filosófico considerável. E nisto, encontra-se o vai e vem trabalhoso da engrenagem poética. A poeta soube cortar palavras e diz muito com uma economia só vista em Paulo Leminski e Adélia Prado. O menor poema tem três versos e o maior apenas vinte. O título do menor, Silêncio, talvez elucide as pretensões da poeta nascida em Cândido Moura, mas que hoje reside na Itália. As pausas que compõem a poesia de Vera Lúcia lembram o silêncio das meditações budistas, do sono e, em especial, da morte. A poeta de versos curtos é capaz de provocar sugestões inúmeras: “se peso sou/se não peso ninguém/percebe que sou”. Ou “não posso parar/sou como a corda/de um varal que a noite/tange retesa solta/até que retorne/à dimensão original”. O mistério é o cotidiano. A vida é a soma das pequenezas: “o mistério está na aragem/não carrega vozes/o mistério está na cozinha/nas panelas limpas/nas tampas penduradas nas hastes/na goteira incessante da pia/o mistério está na respiração macia/de cada coisa em seu nicho/esperando a hora de ser útil”. O silêncio – mudez e surdez – compreende o mistério anunciado em A poesia é um estado de transe. Trata-se do silêncio do subsolo, onde residem as raízes, as sementes e os corpos mortos. Mas é também o silêncio do útero, local onde os filhos são gerados sem que pedissem às mães – o silêncio da noite, das sombras e, por final, da própria escuridão.

Entrar no útero é crescer lá dentro

A palavra útero tem dimensão peculiar e está associada a palavra dentro, que aparece vezes diversas como se configurasse uma oração, uma denúncia – como se houvesse necessidade urgente de compreensão. “Só dentro me placo” é o que escreve a poeta para referir-se à vontade de penetrar no osso de tudo o que Deus gerou. Entretanto, dentro também é a morte, grande útero que finda a vida: “ela sabia que na hora chegada/do dia que Deus tinha determinado/dentro da grande língua da terra/ela teria que entrar”. Dentro designa as palavras que têm cicatrizes – apego, parto e tempo: “dentro elas são de madeira/dentro elas se impregnam”. Em oposição à palavra fora, dentro é o lugar de encontro, onde podemos ouvir a nós mesmos. Fora é a residência da perda e do barulho. Em O coração das sementes, um dos poemas mais interessantes do livro, a poeta vai à profundeza da vida, através das árvores, sugerindo encontrar o sentido verdadeiro para a existência. Ela afirma: “por dentro da polpa de um fruto maduro/penetrava em tudo o que é coisa”. Porém, a conclusão da poeta não deixa escapar a sua lucidez que em alguns momentos confunde-se com desalento. “(…) dentro da vida/há morte” ou a constatação “(…) o moinho dentro/ralando um milho sem piedade”. Dentro, na poesia de Vera Lúcia, concerne em “gemer a fome cuspir a raiva/de ter sido gerado não do jeito/que ele tinha sonhado mas do jeito/que o tinham feito”. É o “antro de uma caldeira/que arde dentro da boca/as lascas de uma ferida”.

Sua fome é minha fome

Noutros momentos, a poeta afirma haver uma espécie de fome que brama dentro noite e dia. Uma fome inominável que não se sabe dizer o que é. Que fome é esta? O que Deus carrega consigo no útero? Que é esta coisa que falta que as pessoas não sabem quando perderam? Que é o grande abarrotamento no grande silêncio de fora? Trata-se do desejo de raspar a casca da terra por dentro das sementes, de penetrar em tudo o que é coisa e, como Aleijadinho, recriar o mundo. É preciso gerar nas entranhas a razão para o voo, lembra a poeta. No útero, subterrâneo onde reina a morte, reina também a vida. A liberdade é construção humana. O ser humano precisa vagar no arcano até perceber a proporção correta de cada signo que revela o mistério, como propõem os versos de Há uns que são engenheiros.

Rosnar para o mundo

O lamento da fome e a impossibilidade de gerar razões para o voo levam a poeta a compreender o mundo com um grau elevado de pessimismo. No poema O verdugo, Deus é aquele que castiga a poeta desde a sua vinda ao mundo. Aliás, o mundo não dá trégua. Sofre-se desde o princípio. Deus e o mundo parecem configurar a mesma pessoa ou questão, a mesma decadência: “(…) passo as noites ouvindo/um ruído de traças comendo o mundo”. No poema O Aleijadinho, a poeta indaga: “qual mutilação nossa/espelha Deus?”. Já em À nossa imagem, Vera Lúcia de Oliveira admite o seu desencanto: “chove miudinho/o mundo está lavado/em toda sua dimensão/os vidros se embaçam/a hora espera o arco-íris/enquanto encerro a casa/com obstinação/retiro a louça do lugar/reordeno o mundo da casa/à nossa imagem e solidão”. Diante deste quadro, resta acreditar nas palavras consoladoras do poema Grão: “mas saíste do amor de uma noite/em que Deus habitou meu útero”. Parece haver alguma chance para Deus e o mundo no universo sôfrego de A poesia é um estado de transe.

O amor é a maior causa de morte

Em suas teorias sobre o amor, a poeta dispara: “o amor é a maior causa de morte”. E explica a existência de quatro tipos de amor: 1. o dado de graça; 2. o dado de raiva; 3. o dado de ódio; 4. o não dado. Este último, a falta de amor,  é a maior causa de morte da humanidade. No poema Esmola, a poeta que cresceu na cidade de Assis, em São Paulo, define a relação paradoxal entre ódio e amor. E afirma: “só o ódio é um sentimento humano”, porque para ela “o amor não deixa rastro, o amor não/se imprime à sangue na memória”. E outra vez põe Deus/mundo em questão: “o ódio é um fogo que a gente alimenta/com o nosso desejo de ser um pouco como Deus/e não ter que esmolar o amor para sobreviver”. Em outros poemas, o verbo amar aparece conjugado no passado: “amei você com fome de luz” e “amava (…) o rendilhado das frestas na penumbra”. Não há nada que “sobeja do que já foi esquecido”. O amor não interessa mais. Nem Deus. Nem o mundo. O amor é aquilo que gera a fome que rói e entristece a poeta.

Pisar o chão como num luto

Tudo volta à terra, insiste a poeta paulistana. Não há saída. “Sei que o corpo pede terra”.  Com o anúncio da morte e com a própria morte apoderando-se das coisas e das pessoas, mostrando-se maior que Deus e o mundo, resta carregar o luto, cultivá-lo em alguma parte do corpo. É preciso saber falar com a morte, amar com a vida. É preciso encarar “o monótono jeito de carregar um luto”, uma perda, porque – por vezes – as pessoas veem nos dizer que somos nós que estamos mortos, como no poema Fiel. Por final, resta matutar para onde vão as pessoas engolidas pelo escuro das linhas quadriculadas. É possível darmos com a resposta do pai da poeta, no último poema de A poesia é um estado de transe: “viraram pássaros (…) iam aprender no voo/o resto da geometria”. As pessoas morrem porque não sabem voar.

+ Livro: A poesia é um estado de transe

+ Autora: Vera Lúcia de Oliveira

+ Editora: Portal

+ Número de páginas: 64

+ Ano: 2010

Onde comprar:

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Paulo Plínio Abreu e a experiência interior

Por Nilson Oliveira

I. O retorno à superfície

Três décadas após a primeira edição de POESIA, o poeta volta à cena, reeditado pela Edufpa. Sem dúvida, um acontecimento expressivo nas dobras do espaço literário. A poesia de Paulo Plínio Abreu é de um vigor que, tal como todo grande projeto literário, confronta o tempo, rivalizando ombro a ombro com o presente e lançando questões [imagens inusitadas] que, pela potência intempestiva, remetem o pensamento literário para as bandas do por vir. Seus poemas nos trazem uma experiência de desterritorialização, ou seja, de um deslocamento do estabelecido, do que está amarrado a uma cultura do mesmo, pois há na escrita de Paulo Plínio Abreu um sinuoso jogo movediço, no qual as imagens deslizam pela superfície do não familiar. É sempre uma cena de estranhamento ou de novas imagens. Com Ele não há planos fixos, mas vôos, ventos, ondas: “O vento vem do mar e dos navios que passam / carregados de vento e sal para as Antilhas” [Ode na praia do Leme]. A poesia de Paulo Plínio é sempre um êxodo, um fluxo operando por “linhas de fuga”, o que consiste em pensar de outra maneira, erigindo uma outra paisagem para a cena literária, pensando o não pensado do pensamento. Corte finíssimo, abertura, passagem de ar, pensamento que é pura duração: “Nele a cada instante, o movimento já não é, mas isso porque, precisamente, ele não se compõe de instantes, porque os instantes são apenas as suas paradas reais ou virtuais, seu produto é a sombra de seu produto. O ser não se compõe com presentes. Portanto, o produto é o que não é e o movimento é o que já era.  Em um passo de Aquiles, os instantes e os pontos não são segmentados[i]. Essa é a cadência da Poesia de Paulo Plínio: matéria e acontecimento, feixe aberto no horizonte, já não há presente ou passado, apenas duração. Nela o poeta descortina o seu próprio conceito de tempo e, com isso, sedimenta sua obra: Nau sem porto, /Barco feito de mito, construído no espaço /com a matéria das nuvens [O Barco e o Mito]. Nessa direção, mergulha ao fundo de cada empreendimento, contudo deslocando-se para um ‘sem fundo’, que se abre – continuamente – noutras experimentações do fazer literário: As palavras foram na infância os seus brinquedos / e não compreendeu mais tarde a sua própria linguagem / cheia de estranhos sinais; o coração adolescente / dormiu nas estrelas em obscuras viagens [O Mistificador]. Trata-se, sem dúvida, da infância desenhada como a imagem que se transforma constantemente – o devir criança do pensamento, alheio às regras da lógica, que produzi uma palavra que não cede e a um só tempo não se deixa nomear. Paulo Plínio foi uma singularidade. Quanto à sua poética, não se deixou alinhar pelas tendências predominantes de sua época, estando desde sempre ‘fora do lugar’, navegando, tal como nos diz Francisco Paulo Mendes: pelas “Iluminações, para qual a poesia é o reflexo ou lampejo de uma outra realidade, oculta, transcendente”[ii]. Há na poesia de Paulo Plínio uma miríade de encontros, uma verdadeira nutrição expressa em influências determinantes [Rimbaud/ Mallarmé/ Surrealismo/ Pessoa], que remetem o poeta para um círculo mais exigente. Esse é o seu investimento, o combate na direção dos encontros, mas também, dos deslocamentos, estando desde sempre em movimento, sendo sempre outro. A sua escrita age silenciosa e encontra no sujeito a decisão de não ser, que consiste no desejo nômade de convocar o ausente para tornar real sua presença – fora do sujeito e do mundo –, na sua realidade de escritura. Seu lugar é o não lugar. Esse é seu combate, sua matéria de fim e de começo, ofício de interminável busca.

II. Rilke

Mas há também Rilke, e é com ele que Plínio trava sua experiência decisiva, mergulho intenso, encontro, deflagração no sentido de uma produção, pois há um efeito rilkeano na escrita de Paulo Plínio. Na opinião de Paulo Mendes: “Um dos aspectos da poética de Paulo Plínio a exigir atenção é o da sua temática. São numerosos os temas: o da viagem, o de uma região maravilhosa, o do amor e da amada, o da infância, o do anjo, o da pureza, etc. E dominando todos esses o tema da Morte. Como se verifica, ainda uma temática rilkeana”[iii]. Efeito que nada tem a ver com “fazer parecido”, isto é, de repetir o que o poeta disse, mas de produzir semelhança, arrastando “o texto ora para as margens, ora para o meio, ora para o fora ou o dentro, em uma escrita-experimento, sem dualidades, todavia, com o rigor necessário próprio à interpretação como musicalidade cuja potência criativa exige uma espécie de ascese do texto”[iv]. O tema da morte torna-se um ponto de interação entre Plínio e Rilke, ambos navegando na mesma Rota, cada um à sua maneira, interpretando, produzindo multiplicidades. Criam, a partir do tema da morte, suas próprias noções: São retratos mentais noéticos, maquínicos. Neles a morte é pensada como algo intimamente ligado à vida: Tu que veste a morte com o que cai do coração dos vivos, nos diz Paulo Plínio; ou o morrer que seja verdadeiramente parte desta vida, afirma Rilke. Tanto em um caso como em outro é a morte acontecendo como algo que é “nosso” mas que não nos cabe controlar. Como não pensar em Hölderlin: Viver é uma morte, e a morte também é uma vida. Por certo Hölderlin foi a referência silenciosa que frequentou as leituras de Rilke e Paulo Plínio. Poderoso encontro tríplice, bela experiência de atravessamento, portanto de Afecção, [conceito peculiar a Espinosa], “efeito de um corpo sobre o outro”, e também feito sobre minha própria produção, prazer ou dor, alegria ou tristeza. As afecçõessão passagens, devires, ascensões e quedas, variações contínuas” [v]. O poder de ser afetado em Paulo Plínio Abreu desdobra-se na potência que engendra uma prática de escrita, o que implica num fazer desejoso que faz da escrita um instrumento de ação, verdadeira máquina abstrata, sempre aberta, sempre por fazer-se, que combate pela criação de outra paisagem para a literatura: mundo pressentido e oculto [Viagem ao sobrenatural]; mundo fora do mundo, realidade que se concretiza por esse fora :“é na realização desse fora que começa a criação literária” [vi]. O Fora é uma tempestade de forças não estratificadas, informes, um espaço anterior, no qual as coisas não são representativas, mas singulares, como uma linguagem outra, fora do usual, fruto de uma experiência da escrita. Um Exercício de Estilo como faz Raymond Queneau a partir da fórmula: é escrevendo que se vira escrevedor. Nessa esfera, escrever é lapidar uma experiência outra. Trabalho de artesão, martelando na direção do por vir / do indeterminado da escrita. A literatura é uma saúde. A saúde como literatura consiste em inventar um povo que falta. Fazer-se estrangeiro na sua própria língua, criando um devir outro da língua, tal como fez Manoel de Barros: uma minoração da língua maior. Já não se trata mais simplesmente de fazer o texto, mas criar outra sintaxe, algo que não parte do preexistente, que inventa sua própria lógica de uso das palavras, elevando a linguagem a seu limite, valendo-se de “algumas palavras que ainda não tenham idioma”[vii], lançando a escrita para zonas de inventividade, para um espaço de criação. Criar é, nesse sentido, produzir forças, como a dos Poemas de Paulo Plínio, uma verdadeira tempestade de sons, traços, imagens, um bloco de multiplicidades em que o estilo denota uma potência e a um só tempo nos revela a criatividade do seu fazer artístico.

III. A atualidade de Paulo Plínio Abreu

Dentro do panorama literário de nossa época, a poesia de Paulo Plínio Abreu ocupa um lugar singular. É difícil classificá-lo entre as experiências do presente, sempre tão associadas a um fazer territorializado no qual a escrita é sempre a expressão de uma identidade. Acreditamos que “o primado da identidade, seja qual for a maneira pela qual esta é concebida, define o mundo da representação. Mas o pensamento moderno nasce da falência da representação, assim como da perda das identidades”[viii]. É da falência do mesmo que jorra a poesia de Paulo Plínio, nave do nada sempre em movimento, alhures, na velocidade das correntes marítimas, quase imperceptíveis, mas sempre indo. Tal como em Paulo Plínio, a poesia de Max Martins, Mário Faustino e Cauby Cruz, forma um abecedário de resistência pela Alta Literatura [valendo-se do conceito de Leyla Perrone-Moisés]. Resistência enquanto potência ativa, como criação, no âmbito da obra literária. Há seguramente um caráter inovador na poesia de Paulo Plínio, uma abertura evidente que cintila na esfera das palavras, e nela a poesia dobra-se em fluxos de intensidades: a luta do poeta não é / com o anjo,/ mas com o verbo. A sua postura é singular, está deliberadamente fora dos clichês e dos axiomas da identidade: As chaves do mundo / para sempre perdidas [Fragmentos]. Em Paulo Plínio a poesia de transcorre por fora de toda significação, rumo a uma direção própria: Nau sem porto/ as águas te seduzem. Escrita líquida, Nave do nada feita e quase ave / desfeita em vôo puro, que não se rende a sistemas ou arborescências, pois acontece exterior à gramática da representação, navegando pelas margens numa viagem em que não existe início ou fim, mas vontade do novo, num vigoroso processo de trabalho pela reinvenção da matéria escrita. Paulo Plínio combate em favor da palavra, descortinando em cada frase, fragmento, poema, imagens que compõem outra fisionomia; é um extraordinário caso de ruptura. Sua jornada acontece desviando-se dos pontos e fronteiras, avançando pelo meio do mar, do deserto, de um país estrangeiro; gerando afectos, trocas, devires. Assim, pelo meio, Paulo Plínio atravessa a superfície do contemporâneo expressando sua vontade de potência, sua força de criação.

LIVRO: POESIAS

AUTOR: PAULO PLÍNIO ABREU

EDIATORA: EDUFPA, Editora da Universidade Federal do Pará

ANO: 2009

PÁGINAS: 190.


NOTAS:

[i]  DELEUZE, Gilles. Bergsonismo. São Paulo: Ed. 34, 2004, p. 95-123.

[ii] MENDES, Francisco Paulo. Poesia. Belém: Edufpa 1978, p. X.

[iii] Idem, p. XII.

[iv] LINS, Daniel. Expressão: Espinosa em Deleuze / Deleuze em Espinosa. São Paulo: Forense Universitária, 2008, p. 4.

[v] DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. São Paulo: Ed. 34, 1997, p. 157.

[vi] BLANCHOT, Maurice. A Parte do Fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 305.

[vii] BARROS, Manoel de. Livro das Ignoranças. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p. 21.

[viii] DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. Rio de Janeiro: Graal, 1998, p. 20 – 61.

 

Nilson Oliveira (Belém-PA) é escritor, ensaísta, editor da Revista Polichinello; autor de A Outra Morte de Haroldo Maranhão; A Literatura e Os Possíveis da Escrita Literária, Editora Lumme-2010.

E-mail: revista.polichinello@gmail.com

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Torturas imemoráveis de um quase ex.

Por Edilson Pantoja

Em “Memórias quase póstumas de um ex-torturador”, do paraense João Bosco Maia, romance vencedor do “Prêmio IAP de Literatura”, 2006, um homem, imerso num cotidiano decrépito e anódino, e aos oitenta e cinco anos, recebe, num diagnóstico médico, a revelação de que dispõe de apenas dois meses de vida. Recebe também a visita de dois surpreendentes personagens. Com estes, numa espécie de revisita e prestação de contas do obscuro passado, tem que dividir as próprias memórias. Estas, permeadas de atos questionáveis sob diversos ângulos, no que se inclui o ético, embasam-se numa biografia cuja trajetória não se explica senão pela maldade. Quanto a esta, maldade, se não se pode afirmar, com base nas prerrogativas do romance, que seja inata ao homem em geral, pode-se pelo menos supor que seja inerente a alguns homens. Estes, porém, nada extraordinários (para lembrar Maquiavel e Raskólnikov).
Extraordinário, aliás, seria o sistema político que, em nome da suposta segurança e interesses do Estado, gera em seu ventre medonho homens com tal disposição. Seria. Pois, como denuncia o filósofo Giorgio Aganbem, as democracias contemporâneas têm lançado mão dos chamados estados de exceção como recurso de controle e vigilância dos cidadãos, privando-os de seus direitos, de sua vida. Na concepção de Aganbem, tal recurso se tornou tão corriqueiro, que deixou de ser excepcional, constituindo-se, na verdade, um padrão de atuação dos Estados democráticos.
Pedro, o personagem em questão, dono de uma personalidade ridícula, foi torturador, funcionário do Estado brasileiro autoritário. Mas o aspecto ridículo que o caracteriza não o é apenas por ter ficado no outro lado, o ativo, do ato de tortura nos infames “porões” da ditadura. Pedro é assim porque, como suas vítimas, não passa de uma peça na grande estrutura de poder ante a qual homens são como insetos; animais preocupados com a fragilidade do próprio abrigo; criaturas culpadas pelo simples fato de existir… Ainda menino, teve que fugir de casa para escapar das maldades do pai, que abusava da própria filha – protetora do menino -, e o surrava, cotidianamente, com hora marcada, independentemente de qualquer travessura.
Pedro é um homem de seu tempo. Nascido justamente quando a mãe falecia, motivo pelo qual recebeu por toda a vida o ódio do pai, fez-se ante a ausência de referências e certezas basilares. Pedro é um homem perdido, cuja existência se fez à base de mentiras, fingimentos, ficções. Perdido também resta o leitor, quando, ao final, maravilhado com os rumos tomados pela história do personagem, sente a mesma esvair-se ante sua vista, ante suas mãos, num exemplo do que disse alguém acerca da modernidade. Nesta, afirmou, tudo o que é sólido se desmancha no ar.
Resta, porém, a admiração com o talento e a louvável capacidade narrativa de João Bosco Maia. Sem dúvida, um dos nomes da nova – e boa! – literatura paraense. Ou melhor: literatura brasileira. Melhor ainda: Literatura.
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Serviço:
Livro: Memórias quase póstumas de um ex-torturador. Edições IAP: Belém: 2006.
Autor: João Bosco Maia.
Onde comprar: blog do autor.

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Edner Morelli: transgressão e lirismo

Por Rudinei Borges

Latência, primeiro livro do poeta Edner Morelli, publicado em 2002, antecipou a onda de poemas e contos curtos que marcam a produção literária brasileira no fim dos anos 2000. Influenciada pelo advento do microblog twitter, a nova geração de escritores opta pela concisão. A ordem do dia é cortar palavras, como defende o escritor Marcelino Freire que em 2004 idealizou e organizou a antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século reunindo diversos autores para escrever histórias inéditas com menos de 50 letras. No entanto, antes de Millôr Fernandes, Xico Sá e Fabrício Carpinejar se tornarem, com versos e frases, presença certa no twitter, Morelli já escrevia poemas curtíssimos como o irreverente Poemeto esquerdo com apenas dois versos: “Não me apresento/ Nem a mim mesmo”. Tem menos de 140 caracteres.

Mas é preciso lembrar que a concisão já era desejo antigo de poetas modernistas como Oswald de Andrade em seu poema 3 de maio: “Aprendi com meu filho de dez anos/ Que poesia é a descoberta/ Das coisas que eu nunca vi”. Como também da poesia concreta e da obra de Paulo Leminski, por exemplo, com sua vasta produção de haicais .

De fato, a concisão é um dos méritos de Latência. Pena que nem todos os poemas curtos tenham o alcance filosófico anunciado por Caio Porfírio Carneiro no prefácio do livro. Algumas construções curtíssimas de Morelli são surpreendentes como o poema Relógios: “Relógios?/ Não os tenho/ São eles que estragam/ O tempo”. Ou no poema Infância: “Sonho/ De menino/ Não cabe/ No compêndio/ Do infinito”. Noutros momentos, porém,  o poeta esbarra em construções que se assemelham a frase de efeito como no poema Conformismo: “Teorias e pensamentos/ Nada podem contra/ A linha obscura do desejo”. Ou no poema Cadência: “O amor é a coincidência/ Mais sincera existente”.

O poeta paulistano demonstra bastante fôlego em poemas como Instante, quando põe as cartas sobre a mesa e confessa, sem medo, ao leitor o que significa para ele a própria poesia. Vejamos:

“A vida sem poesia

Não começa nem termina

Não há essência nem pantomina

Não questiona nem obriga

Não intimida nem contamina”.

O mesmo ocorre no poema seguinte, Surpresa, onde o poeta escancara, com alguma serenidade, as frestas de sua criação poética. A poesia está no cotidiano, ele sussurra. Ou melhor, a poesia é o cotidiano, ele afirma:

“Pobrezinho

E ele que pensa

Que poesia

É só distorção

Complicação

Nada disso

Poesia também

É o cotidano

Bordado de elegância”.

Os poemas maiores são confissões angustiadas. A vida, no poema que dá título ao livro, é cruel. O poeta é aquele que tem as agruras como matéria-prima de sua criação: “Meus poemas estão perfilados/ Amotinados e confinados/ Dentro de minhas incertezas”. Os versos em primeira pessoa desenham o rosto estarrecido do poeta diante das veredas do próprio ofício: “Sou uma vertente do amor/ Que insiste em sonhar cores inexistentes”. Nestes versos do poema Insistência, Edner Morelli veste definitivamente o hábito da transgressão lírica.

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Livro: Latência

Autor: Edner Morelli

Editora: Atemporal, São Paulo

Páginas: 64

Ano: 2002

Onde comprar: No blog do autor

www.captacaodosegundo.blogspot.com

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Sobre fragmento e concisão no livro Necrose da palavra de Welton de Sousa

Por Rudinei Borges

Em Necrose da palavra, primeiro livro de Welton de Sousa, o poeta assume o desafiante ofício de coletar palavras soltas em outdoors, placas, revistas e jornais velhos. Não há fim no jogo de Welton. Só começo. O labirinto não tem saída.

As palavras secas coletadas por Welton permanecem secas e soltas. Na carpintaria literária do poeta baiano os pregos, as frestas e as ranhuras ficam à vista. Tudo está exposto. Sem ressentimentos.

Enganam-se os que pensam tratar-se de fluxo de consciência ou automação psíquica. A verve poética de Welton é pregar ripas e tábuas. Ele sabe muito bem onde colocá-las quando quer construir a sua arca.

Em As vozes líquidas dos poemas convidam, poema que abre Necrose da palavra, o poeta inicia com o seguinte verso: “O olhar doutrinário insípido divaga”. O que pensar desta construção, senão que ela confere às palavras uma nova função ou uma ressignificação. Não se sabe ao certo se, de fato, os termos doutrinário e insípido têm a função de adjetivo. Por mais que isto, a princípio, pareça evidente. Em verdade, os adjetivos são uma questão significativa a ser discutida nos poemas de Welton, uma vez que eles compõem o que podemos chamar de método de aglutinação de palavras neste poeta. A grande dúvida sobre a maior parte dos poemas deste livro é: esta palavra tem relação com a palavra anterior e com a posterior? Nem sempre.

Neste sentido, a poesia de Welton exige do leitor a responsabilidade de juntar por conta própria as peças do quebra-cabeça. O veredicto final é do leitor neste caso. Talvez seja sobre isto que o poeta esteja se referindo no último verso de As vozes líquidas dos poemas convidam: “E outra realidade menos morta é-nos vedada”. Talvez a descoberta do leitor configure esta realidade vívida profetizada pelo poeta.

Em outros poemas, o exagero de adjetivos surge como afronta ao leitor. E, em certo sentido, diminui o poema, porque a máquina de atirar adjetivos é quase ininterrupta. É o que acontece em Olhos extáticos. Em quase todos os versos há construções com adjetivos, como por exemplo: cinzas adormecidas, penumbra inóspita, lucidez artística, fragmentada composição, palavra divergente, quotidiano multifacetado e desejos ardentes. No poema sem título da página 63 os adjetivos, ao contrário de Olhos extáticos, são alinhados e dosados harmonicamente: “Quisera chorar dedos dilacerados/ Raízes do canto subterrâneo/Da infância aos rios/ Lavei o rosto da terra/ Mas a boca sangrava/ Um silêncio de canções amordaçadas”.

O melhor de Necrose da palavra surge na coleção de palavras que o poeta junta em poemas como Acervo da luta. O fato da voz do poeta se diluir em muitas vozes permite ao poema alcançar a medida exata do experimento que Welton empreende. São anúncios de jornais, nomes de canções, gritos de presos políticos, citações de datas e expressões repetidas que se misturam na vozearia ruidosa que o poema ostenta. Talvez por isso este poema, por exemplo, tenha sido interpretado com enorme consistência pelo ator Dias Filho na intervenção cênica Poetas de Vidro da 127 Fundos Cia. de Teatro em São Paulo.

Porém, há outro poeta em Necrose da palavra: aquele que não aglutina palavras, que é conscientemente conciso e seletivo. Trata-se dos poemas curtos de Welton de Sousa. São estas as criações que mais reverberam no livro do poeta baiano. Em Moças da indústria bélica, o poeta, em poucas palavras, descreve o itinerário sôfrego das mulheres no pós-guerra. Vejamos:

 “Francesas

Alemãs

Russas

Inglesas

Japonesas

Americanas

Mais americanas

E quando acaba a guerra

A cozinha

A casa

Os filhos

As roupas

O marido

E a depressão”

O mesmo ocorre no poema Breviário II. A concisão e a secura com que o poeta narra os fatos transpassa o mero sentimentalismo e denuncia a frieza dos acontecimentos. Aí a poesia de Welton assume maior maturidade em sua construção.

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Livro: Necrose da palavra

Autor: Welton de Sousa

Gênero: Poesia

Editora: All Print

Páginas: 72

Ano: 2010

Onde comprar:

www.allprinteditora.com.br

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