Arquivo de outubro \16\UTC 2010

Paulo Plínio Abreu e a experiência interior

Por Nilson Oliveira

I. O retorno à superfície

Três décadas após a primeira edição de POESIA, o poeta volta à cena, reeditado pela Edufpa. Sem dúvida, um acontecimento expressivo nas dobras do espaço literário. A poesia de Paulo Plínio Abreu é de um vigor que, tal como todo grande projeto literário, confronta o tempo, rivalizando ombro a ombro com o presente e lançando questões [imagens inusitadas] que, pela potência intempestiva, remetem o pensamento literário para as bandas do por vir. Seus poemas nos trazem uma experiência de desterritorialização, ou seja, de um deslocamento do estabelecido, do que está amarrado a uma cultura do mesmo, pois há na escrita de Paulo Plínio Abreu um sinuoso jogo movediço, no qual as imagens deslizam pela superfície do não familiar. É sempre uma cena de estranhamento ou de novas imagens. Com Ele não há planos fixos, mas vôos, ventos, ondas: “O vento vem do mar e dos navios que passam / carregados de vento e sal para as Antilhas” [Ode na praia do Leme]. A poesia de Paulo Plínio é sempre um êxodo, um fluxo operando por “linhas de fuga”, o que consiste em pensar de outra maneira, erigindo uma outra paisagem para a cena literária, pensando o não pensado do pensamento. Corte finíssimo, abertura, passagem de ar, pensamento que é pura duração: “Nele a cada instante, o movimento já não é, mas isso porque, precisamente, ele não se compõe de instantes, porque os instantes são apenas as suas paradas reais ou virtuais, seu produto é a sombra de seu produto. O ser não se compõe com presentes. Portanto, o produto é o que não é e o movimento é o que já era.  Em um passo de Aquiles, os instantes e os pontos não são segmentados[i]. Essa é a cadência da Poesia de Paulo Plínio: matéria e acontecimento, feixe aberto no horizonte, já não há presente ou passado, apenas duração. Nela o poeta descortina o seu próprio conceito de tempo e, com isso, sedimenta sua obra: Nau sem porto, /Barco feito de mito, construído no espaço /com a matéria das nuvens [O Barco e o Mito]. Nessa direção, mergulha ao fundo de cada empreendimento, contudo deslocando-se para um ‘sem fundo’, que se abre – continuamente – noutras experimentações do fazer literário: As palavras foram na infância os seus brinquedos / e não compreendeu mais tarde a sua própria linguagem / cheia de estranhos sinais; o coração adolescente / dormiu nas estrelas em obscuras viagens [O Mistificador]. Trata-se, sem dúvida, da infância desenhada como a imagem que se transforma constantemente – o devir criança do pensamento, alheio às regras da lógica, que produzi uma palavra que não cede e a um só tempo não se deixa nomear. Paulo Plínio foi uma singularidade. Quanto à sua poética, não se deixou alinhar pelas tendências predominantes de sua época, estando desde sempre ‘fora do lugar’, navegando, tal como nos diz Francisco Paulo Mendes: pelas “Iluminações, para qual a poesia é o reflexo ou lampejo de uma outra realidade, oculta, transcendente”[ii]. Há na poesia de Paulo Plínio uma miríade de encontros, uma verdadeira nutrição expressa em influências determinantes [Rimbaud/ Mallarmé/ Surrealismo/ Pessoa], que remetem o poeta para um círculo mais exigente. Esse é o seu investimento, o combate na direção dos encontros, mas também, dos deslocamentos, estando desde sempre em movimento, sendo sempre outro. A sua escrita age silenciosa e encontra no sujeito a decisão de não ser, que consiste no desejo nômade de convocar o ausente para tornar real sua presença – fora do sujeito e do mundo –, na sua realidade de escritura. Seu lugar é o não lugar. Esse é seu combate, sua matéria de fim e de começo, ofício de interminável busca.

II. Rilke

Mas há também Rilke, e é com ele que Plínio trava sua experiência decisiva, mergulho intenso, encontro, deflagração no sentido de uma produção, pois há um efeito rilkeano na escrita de Paulo Plínio. Na opinião de Paulo Mendes: “Um dos aspectos da poética de Paulo Plínio a exigir atenção é o da sua temática. São numerosos os temas: o da viagem, o de uma região maravilhosa, o do amor e da amada, o da infância, o do anjo, o da pureza, etc. E dominando todos esses o tema da Morte. Como se verifica, ainda uma temática rilkeana”[iii]. Efeito que nada tem a ver com “fazer parecido”, isto é, de repetir o que o poeta disse, mas de produzir semelhança, arrastando “o texto ora para as margens, ora para o meio, ora para o fora ou o dentro, em uma escrita-experimento, sem dualidades, todavia, com o rigor necessário próprio à interpretação como musicalidade cuja potência criativa exige uma espécie de ascese do texto”[iv]. O tema da morte torna-se um ponto de interação entre Plínio e Rilke, ambos navegando na mesma Rota, cada um à sua maneira, interpretando, produzindo multiplicidades. Criam, a partir do tema da morte, suas próprias noções: São retratos mentais noéticos, maquínicos. Neles a morte é pensada como algo intimamente ligado à vida: Tu que veste a morte com o que cai do coração dos vivos, nos diz Paulo Plínio; ou o morrer que seja verdadeiramente parte desta vida, afirma Rilke. Tanto em um caso como em outro é a morte acontecendo como algo que é “nosso” mas que não nos cabe controlar. Como não pensar em Hölderlin: Viver é uma morte, e a morte também é uma vida. Por certo Hölderlin foi a referência silenciosa que frequentou as leituras de Rilke e Paulo Plínio. Poderoso encontro tríplice, bela experiência de atravessamento, portanto de Afecção, [conceito peculiar a Espinosa], “efeito de um corpo sobre o outro”, e também feito sobre minha própria produção, prazer ou dor, alegria ou tristeza. As afecçõessão passagens, devires, ascensões e quedas, variações contínuas” [v]. O poder de ser afetado em Paulo Plínio Abreu desdobra-se na potência que engendra uma prática de escrita, o que implica num fazer desejoso que faz da escrita um instrumento de ação, verdadeira máquina abstrata, sempre aberta, sempre por fazer-se, que combate pela criação de outra paisagem para a literatura: mundo pressentido e oculto [Viagem ao sobrenatural]; mundo fora do mundo, realidade que se concretiza por esse fora :“é na realização desse fora que começa a criação literária” [vi]. O Fora é uma tempestade de forças não estratificadas, informes, um espaço anterior, no qual as coisas não são representativas, mas singulares, como uma linguagem outra, fora do usual, fruto de uma experiência da escrita. Um Exercício de Estilo como faz Raymond Queneau a partir da fórmula: é escrevendo que se vira escrevedor. Nessa esfera, escrever é lapidar uma experiência outra. Trabalho de artesão, martelando na direção do por vir / do indeterminado da escrita. A literatura é uma saúde. A saúde como literatura consiste em inventar um povo que falta. Fazer-se estrangeiro na sua própria língua, criando um devir outro da língua, tal como fez Manoel de Barros: uma minoração da língua maior. Já não se trata mais simplesmente de fazer o texto, mas criar outra sintaxe, algo que não parte do preexistente, que inventa sua própria lógica de uso das palavras, elevando a linguagem a seu limite, valendo-se de “algumas palavras que ainda não tenham idioma”[vii], lançando a escrita para zonas de inventividade, para um espaço de criação. Criar é, nesse sentido, produzir forças, como a dos Poemas de Paulo Plínio, uma verdadeira tempestade de sons, traços, imagens, um bloco de multiplicidades em que o estilo denota uma potência e a um só tempo nos revela a criatividade do seu fazer artístico.

III. A atualidade de Paulo Plínio Abreu

Dentro do panorama literário de nossa época, a poesia de Paulo Plínio Abreu ocupa um lugar singular. É difícil classificá-lo entre as experiências do presente, sempre tão associadas a um fazer territorializado no qual a escrita é sempre a expressão de uma identidade. Acreditamos que “o primado da identidade, seja qual for a maneira pela qual esta é concebida, define o mundo da representação. Mas o pensamento moderno nasce da falência da representação, assim como da perda das identidades”[viii]. É da falência do mesmo que jorra a poesia de Paulo Plínio, nave do nada sempre em movimento, alhures, na velocidade das correntes marítimas, quase imperceptíveis, mas sempre indo. Tal como em Paulo Plínio, a poesia de Max Martins, Mário Faustino e Cauby Cruz, forma um abecedário de resistência pela Alta Literatura [valendo-se do conceito de Leyla Perrone-Moisés]. Resistência enquanto potência ativa, como criação, no âmbito da obra literária. Há seguramente um caráter inovador na poesia de Paulo Plínio, uma abertura evidente que cintila na esfera das palavras, e nela a poesia dobra-se em fluxos de intensidades: a luta do poeta não é / com o anjo,/ mas com o verbo. A sua postura é singular, está deliberadamente fora dos clichês e dos axiomas da identidade: As chaves do mundo / para sempre perdidas [Fragmentos]. Em Paulo Plínio a poesia de transcorre por fora de toda significação, rumo a uma direção própria: Nau sem porto/ as águas te seduzem. Escrita líquida, Nave do nada feita e quase ave / desfeita em vôo puro, que não se rende a sistemas ou arborescências, pois acontece exterior à gramática da representação, navegando pelas margens numa viagem em que não existe início ou fim, mas vontade do novo, num vigoroso processo de trabalho pela reinvenção da matéria escrita. Paulo Plínio combate em favor da palavra, descortinando em cada frase, fragmento, poema, imagens que compõem outra fisionomia; é um extraordinário caso de ruptura. Sua jornada acontece desviando-se dos pontos e fronteiras, avançando pelo meio do mar, do deserto, de um país estrangeiro; gerando afectos, trocas, devires. Assim, pelo meio, Paulo Plínio atravessa a superfície do contemporâneo expressando sua vontade de potência, sua força de criação.

LIVRO: POESIAS

AUTOR: PAULO PLÍNIO ABREU

EDIATORA: EDUFPA, Editora da Universidade Federal do Pará

ANO: 2009

PÁGINAS: 190.


NOTAS:

[i]  DELEUZE, Gilles. Bergsonismo. São Paulo: Ed. 34, 2004, p. 95-123.

[ii] MENDES, Francisco Paulo. Poesia. Belém: Edufpa 1978, p. X.

[iii] Idem, p. XII.

[iv] LINS, Daniel. Expressão: Espinosa em Deleuze / Deleuze em Espinosa. São Paulo: Forense Universitária, 2008, p. 4.

[v] DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. São Paulo: Ed. 34, 1997, p. 157.

[vi] BLANCHOT, Maurice. A Parte do Fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 305.

[vii] BARROS, Manoel de. Livro das Ignoranças. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p. 21.

[viii] DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. Rio de Janeiro: Graal, 1998, p. 20 – 61.

 

Nilson Oliveira (Belém-PA) é escritor, ensaísta, editor da Revista Polichinello; autor de A Outra Morte de Haroldo Maranhão; A Literatura e Os Possíveis da Escrita Literária, Editora Lumme-2010.

E-mail: revista.polichinello@gmail.com

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Torturas imemoráveis de um quase ex.

Por Edilson Pantoja

Em “Memórias quase póstumas de um ex-torturador”, do paraense João Bosco Maia, romance vencedor do “Prêmio IAP de Literatura”, 2006, um homem, imerso num cotidiano decrépito e anódino, e aos oitenta e cinco anos, recebe, num diagnóstico médico, a revelação de que dispõe de apenas dois meses de vida. Recebe também a visita de dois surpreendentes personagens. Com estes, numa espécie de revisita e prestação de contas do obscuro passado, tem que dividir as próprias memórias. Estas, permeadas de atos questionáveis sob diversos ângulos, no que se inclui o ético, embasam-se numa biografia cuja trajetória não se explica senão pela maldade. Quanto a esta, maldade, se não se pode afirmar, com base nas prerrogativas do romance, que seja inata ao homem em geral, pode-se pelo menos supor que seja inerente a alguns homens. Estes, porém, nada extraordinários (para lembrar Maquiavel e Raskólnikov).
Extraordinário, aliás, seria o sistema político que, em nome da suposta segurança e interesses do Estado, gera em seu ventre medonho homens com tal disposição. Seria. Pois, como denuncia o filósofo Giorgio Aganbem, as democracias contemporâneas têm lançado mão dos chamados estados de exceção como recurso de controle e vigilância dos cidadãos, privando-os de seus direitos, de sua vida. Na concepção de Aganbem, tal recurso se tornou tão corriqueiro, que deixou de ser excepcional, constituindo-se, na verdade, um padrão de atuação dos Estados democráticos.
Pedro, o personagem em questão, dono de uma personalidade ridícula, foi torturador, funcionário do Estado brasileiro autoritário. Mas o aspecto ridículo que o caracteriza não o é apenas por ter ficado no outro lado, o ativo, do ato de tortura nos infames “porões” da ditadura. Pedro é assim porque, como suas vítimas, não passa de uma peça na grande estrutura de poder ante a qual homens são como insetos; animais preocupados com a fragilidade do próprio abrigo; criaturas culpadas pelo simples fato de existir… Ainda menino, teve que fugir de casa para escapar das maldades do pai, que abusava da própria filha – protetora do menino -, e o surrava, cotidianamente, com hora marcada, independentemente de qualquer travessura.
Pedro é um homem de seu tempo. Nascido justamente quando a mãe falecia, motivo pelo qual recebeu por toda a vida o ódio do pai, fez-se ante a ausência de referências e certezas basilares. Pedro é um homem perdido, cuja existência se fez à base de mentiras, fingimentos, ficções. Perdido também resta o leitor, quando, ao final, maravilhado com os rumos tomados pela história do personagem, sente a mesma esvair-se ante sua vista, ante suas mãos, num exemplo do que disse alguém acerca da modernidade. Nesta, afirmou, tudo o que é sólido se desmancha no ar.
Resta, porém, a admiração com o talento e a louvável capacidade narrativa de João Bosco Maia. Sem dúvida, um dos nomes da nova – e boa! – literatura paraense. Ou melhor: literatura brasileira. Melhor ainda: Literatura.
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Serviço:
Livro: Memórias quase póstumas de um ex-torturador. Edições IAP: Belém: 2006.
Autor: João Bosco Maia.
Onde comprar: blog do autor.

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