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Sobre fragmento e concisão no livro Necrose da palavra de Welton de Sousa

Por Rudinei Borges

Em Necrose da palavra, primeiro livro de Welton de Sousa, o poeta assume o desafiante ofício de coletar palavras soltas em outdoors, placas, revistas e jornais velhos. Não há fim no jogo de Welton. Só começo. O labirinto não tem saída.

As palavras secas coletadas por Welton permanecem secas e soltas. Na carpintaria literária do poeta baiano os pregos, as frestas e as ranhuras ficam à vista. Tudo está exposto. Sem ressentimentos.

Enganam-se os que pensam tratar-se de fluxo de consciência ou automação psíquica. A verve poética de Welton é pregar ripas e tábuas. Ele sabe muito bem onde colocá-las quando quer construir a sua arca.

Em As vozes líquidas dos poemas convidam, poema que abre Necrose da palavra, o poeta inicia com o seguinte verso: “O olhar doutrinário insípido divaga”. O que pensar desta construção, senão que ela confere às palavras uma nova função ou uma ressignificação. Não se sabe ao certo se, de fato, os termos doutrinário e insípido têm a função de adjetivo. Por mais que isto, a princípio, pareça evidente. Em verdade, os adjetivos são uma questão significativa a ser discutida nos poemas de Welton, uma vez que eles compõem o que podemos chamar de método de aglutinação de palavras neste poeta. A grande dúvida sobre a maior parte dos poemas deste livro é: esta palavra tem relação com a palavra anterior e com a posterior? Nem sempre.

Neste sentido, a poesia de Welton exige do leitor a responsabilidade de juntar por conta própria as peças do quebra-cabeça. O veredicto final é do leitor neste caso. Talvez seja sobre isto que o poeta esteja se referindo no último verso de As vozes líquidas dos poemas convidam: “E outra realidade menos morta é-nos vedada”. Talvez a descoberta do leitor configure esta realidade vívida profetizada pelo poeta.

Em outros poemas, o exagero de adjetivos surge como afronta ao leitor. E, em certo sentido, diminui o poema, porque a máquina de atirar adjetivos é quase ininterrupta. É o que acontece em Olhos extáticos. Em quase todos os versos há construções com adjetivos, como por exemplo: cinzas adormecidas, penumbra inóspita, lucidez artística, fragmentada composição, palavra divergente, quotidiano multifacetado e desejos ardentes. No poema sem título da página 63 os adjetivos, ao contrário de Olhos extáticos, são alinhados e dosados harmonicamente: “Quisera chorar dedos dilacerados/ Raízes do canto subterrâneo/Da infância aos rios/ Lavei o rosto da terra/ Mas a boca sangrava/ Um silêncio de canções amordaçadas”.

O melhor de Necrose da palavra surge na coleção de palavras que o poeta junta em poemas como Acervo da luta. O fato da voz do poeta se diluir em muitas vozes permite ao poema alcançar a medida exata do experimento que Welton empreende. São anúncios de jornais, nomes de canções, gritos de presos políticos, citações de datas e expressões repetidas que se misturam na vozearia ruidosa que o poema ostenta. Talvez por isso este poema, por exemplo, tenha sido interpretado com enorme consistência pelo ator Dias Filho na intervenção cênica Poetas de Vidro da 127 Fundos Cia. de Teatro em São Paulo.

Porém, há outro poeta em Necrose da palavra: aquele que não aglutina palavras, que é conscientemente conciso e seletivo. Trata-se dos poemas curtos de Welton de Sousa. São estas as criações que mais reverberam no livro do poeta baiano. Em Moças da indústria bélica, o poeta, em poucas palavras, descreve o itinerário sôfrego das mulheres no pós-guerra. Vejamos:

 “Francesas

Alemãs

Russas

Inglesas

Japonesas

Americanas

Mais americanas

E quando acaba a guerra

A cozinha

A casa

Os filhos

As roupas

O marido

E a depressão”

O mesmo ocorre no poema Breviário II. A concisão e a secura com que o poeta narra os fatos transpassa o mero sentimentalismo e denuncia a frieza dos acontecimentos. Aí a poesia de Welton assume maior maturidade em sua construção.

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Livro: Necrose da palavra

Autor: Welton de Sousa

Gênero: Poesia

Editora: All Print

Páginas: 72

Ano: 2010

Onde comprar:

www.allprinteditora.com.br

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