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Edner Morelli: transgressão e lirismo

Por Rudinei Borges

Latência, primeiro livro do poeta Edner Morelli, publicado em 2002, antecipou a onda de poemas e contos curtos que marcam a produção literária brasileira no fim dos anos 2000. Influenciada pelo advento do microblog twitter, a nova geração de escritores opta pela concisão. A ordem do dia é cortar palavras, como defende o escritor Marcelino Freire que em 2004 idealizou e organizou a antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século reunindo diversos autores para escrever histórias inéditas com menos de 50 letras. No entanto, antes de Millôr Fernandes, Xico Sá e Fabrício Carpinejar se tornarem, com versos e frases, presença certa no twitter, Morelli já escrevia poemas curtíssimos como o irreverente Poemeto esquerdo com apenas dois versos: “Não me apresento/ Nem a mim mesmo”. Tem menos de 140 caracteres.

Mas é preciso lembrar que a concisão já era desejo antigo de poetas modernistas como Oswald de Andrade em seu poema 3 de maio: “Aprendi com meu filho de dez anos/ Que poesia é a descoberta/ Das coisas que eu nunca vi”. Como também da poesia concreta e da obra de Paulo Leminski, por exemplo, com sua vasta produção de haicais .

De fato, a concisão é um dos méritos de Latência. Pena que nem todos os poemas curtos tenham o alcance filosófico anunciado por Caio Porfírio Carneiro no prefácio do livro. Algumas construções curtíssimas de Morelli são surpreendentes como o poema Relógios: “Relógios?/ Não os tenho/ São eles que estragam/ O tempo”. Ou no poema Infância: “Sonho/ De menino/ Não cabe/ No compêndio/ Do infinito”. Noutros momentos, porém,  o poeta esbarra em construções que se assemelham a frase de efeito como no poema Conformismo: “Teorias e pensamentos/ Nada podem contra/ A linha obscura do desejo”. Ou no poema Cadência: “O amor é a coincidência/ Mais sincera existente”.

O poeta paulistano demonstra bastante fôlego em poemas como Instante, quando põe as cartas sobre a mesa e confessa, sem medo, ao leitor o que significa para ele a própria poesia. Vejamos:

“A vida sem poesia

Não começa nem termina

Não há essência nem pantomina

Não questiona nem obriga

Não intimida nem contamina”.

O mesmo ocorre no poema seguinte, Surpresa, onde o poeta escancara, com alguma serenidade, as frestas de sua criação poética. A poesia está no cotidiano, ele sussurra. Ou melhor, a poesia é o cotidiano, ele afirma:

“Pobrezinho

E ele que pensa

Que poesia

É só distorção

Complicação

Nada disso

Poesia também

É o cotidano

Bordado de elegância”.

Os poemas maiores são confissões angustiadas. A vida, no poema que dá título ao livro, é cruel. O poeta é aquele que tem as agruras como matéria-prima de sua criação: “Meus poemas estão perfilados/ Amotinados e confinados/ Dentro de minhas incertezas”. Os versos em primeira pessoa desenham o rosto estarrecido do poeta diante das veredas do próprio ofício: “Sou uma vertente do amor/ Que insiste em sonhar cores inexistentes”. Nestes versos do poema Insistência, Edner Morelli veste definitivamente o hábito da transgressão lírica.

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Livro: Latência

Autor: Edner Morelli

Editora: Atemporal, São Paulo

Páginas: 64

Ano: 2002

Onde comprar: No blog do autor

www.captacaodosegundo.blogspot.com

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