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Torturas imemoráveis de um quase ex.

Por Edilson Pantoja

Em “Memórias quase póstumas de um ex-torturador”, do paraense João Bosco Maia, romance vencedor do “Prêmio IAP de Literatura”, 2006, um homem, imerso num cotidiano decrépito e anódino, e aos oitenta e cinco anos, recebe, num diagnóstico médico, a revelação de que dispõe de apenas dois meses de vida. Recebe também a visita de dois surpreendentes personagens. Com estes, numa espécie de revisita e prestação de contas do obscuro passado, tem que dividir as próprias memórias. Estas, permeadas de atos questionáveis sob diversos ângulos, no que se inclui o ético, embasam-se numa biografia cuja trajetória não se explica senão pela maldade. Quanto a esta, maldade, se não se pode afirmar, com base nas prerrogativas do romance, que seja inata ao homem em geral, pode-se pelo menos supor que seja inerente a alguns homens. Estes, porém, nada extraordinários (para lembrar Maquiavel e Raskólnikov).
Extraordinário, aliás, seria o sistema político que, em nome da suposta segurança e interesses do Estado, gera em seu ventre medonho homens com tal disposição. Seria. Pois, como denuncia o filósofo Giorgio Aganbem, as democracias contemporâneas têm lançado mão dos chamados estados de exceção como recurso de controle e vigilância dos cidadãos, privando-os de seus direitos, de sua vida. Na concepção de Aganbem, tal recurso se tornou tão corriqueiro, que deixou de ser excepcional, constituindo-se, na verdade, um padrão de atuação dos Estados democráticos.
Pedro, o personagem em questão, dono de uma personalidade ridícula, foi torturador, funcionário do Estado brasileiro autoritário. Mas o aspecto ridículo que o caracteriza não o é apenas por ter ficado no outro lado, o ativo, do ato de tortura nos infames “porões” da ditadura. Pedro é assim porque, como suas vítimas, não passa de uma peça na grande estrutura de poder ante a qual homens são como insetos; animais preocupados com a fragilidade do próprio abrigo; criaturas culpadas pelo simples fato de existir… Ainda menino, teve que fugir de casa para escapar das maldades do pai, que abusava da própria filha – protetora do menino -, e o surrava, cotidianamente, com hora marcada, independentemente de qualquer travessura.
Pedro é um homem de seu tempo. Nascido justamente quando a mãe falecia, motivo pelo qual recebeu por toda a vida o ódio do pai, fez-se ante a ausência de referências e certezas basilares. Pedro é um homem perdido, cuja existência se fez à base de mentiras, fingimentos, ficções. Perdido também resta o leitor, quando, ao final, maravilhado com os rumos tomados pela história do personagem, sente a mesma esvair-se ante sua vista, ante suas mãos, num exemplo do que disse alguém acerca da modernidade. Nesta, afirmou, tudo o que é sólido se desmancha no ar.
Resta, porém, a admiração com o talento e a louvável capacidade narrativa de João Bosco Maia. Sem dúvida, um dos nomes da nova – e boa! – literatura paraense. Ou melhor: literatura brasileira. Melhor ainda: Literatura.
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Serviço:
Livro: Memórias quase póstumas de um ex-torturador. Edições IAP: Belém: 2006.
Autor: João Bosco Maia.
Onde comprar: blog do autor.

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